Vozes do Case, dia 2 – VÍDEO EXCLUSIVO – Histórias de resistência

A assistente social Márcia Araújo, técnica do sistema socioeducativo, conta como foi trabalhar no antigo Centro Educacional São Lucas e os desafios do novo Case da Grande Florianópolis.  

Lúcio Lambranho, Gabriela Rovai/Coruja Filmes e Edu Cavalcanti/Retrato

No mundo de concreto do Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) da Grande Florianópolis existe um grupo de servidores que resistem a cultura da violência imposta desde o antigo São Lucas, unidade que ocupava o mesmo local e foi interditado, em 2010 e demolido em 2011. Em um processo que teve a participação de parte destes técnicos comprometidos com os direitos e a proteção destes jovens, além da ação do Judiciário e do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). São funcionários públicos que lutam para que não se repitam as agressões e casos de tortura na unidade, como revelou nesta quarta-feira (29) o Farol Reportagem

Eles repudiam o uso da violência como método de educação e são até hostilizados por isso por outros colegas que não concordam com essa postura. Tem conhecimento prático e acadêmico do sistema socioeducativo e a maioria atua há dez anos na área. Alguns trabalharam no São Lucas, unidade que existia no mesmo terreno onde hoje é o Case e foi classificada como “masmorra” pelo Conselho Nacional de Justiça.

No período de reconstrução da unidade, os servidores se capacitaram, deram aulas na formação de novos agentes, fizeram pesquisa em unidades semelhantes em todo o estado que resultou em livro. A partir da inauguração do novo centro, em 2014, eles foram retornando ao trabalho interrompido quatro anos antes. Com formações diversas como Assistência Social, Psicologia e Biologia, entre outras, os técnicos e agentes socioeducativos iniciaram uma nova organização do espaço.

Segundo eles, não é mais a cultura da “cabeça para baixo” e “mão para trás”, imposta aos internos em outras administrações. O que prevalece é o respeito e o esforço de construírem, sempre num trabalho de equipe, um projeto socioeducativo em que os adolescentes que cometeram ato infracional sejam reconhecidos por sua potencialidade. A ideia é despertar a curiosidade dos jovens pela vida além do tráfico de drogas. Despertá-los para o mundo.

O grupo se reúne uma vez por semana e debate pautas que vão da escassez de recurso para comprar o material que falta para começar as aulas de serigrafia à avaliação do desempenho de dois internos na horta, elogiado pelo biólogo responsável. São compartilhadas informações sobre a evolução ou não na escolarização de cada interno, seus problemas de saúde, seu comportamento. Sobre novos projetos de aprendizado para eles, além das dificuldades como a falta de computador para dar curso de Windows.

A segunda reunião fixa da semana é a reunião técnica com a presença das assistentes sociais e psicólogas. Todas são mulheres. Elas falam das relações dos adolescentes e seus familiares, vínculo que consideram fundamental. Das audiências a que os jovens tem que comparecer. Dos relatórios produzidos para a justiça. Fazem estudo de caso dos internos. Cada adolescente tem seu técnico de referência que é o responsável imediato pelo jovem, que naquele momento está sob tutela do Estado. Esses profissionais trabalham na linha de frente no atendimento e acolhimento aos adolescentes que cumprem medida ali.

São profissionais que nunca foram ouvidos pela mídia e pela primeira vez falam abertamente sobre os desafios do sistema socioeducativo de Santa Catarina. Contam como lidam no dia a dia com os problemas causados pela omissão do Estado. Seu local de trabalho só é notícia quando tem fuga de internos.

 

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2 Comments

  1. Francisco José Castilhos Karam
    dezembro 2, 2017
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    OI Lúcio,
    tenho lido algumas das reportagens e série de reportagens. Nos tempos de hoje, é dureza, praticamente sem apoio forte, produzir reportagens que rendam socialmente e não apenas economicamente. Uma tarefa e tanto. Parabéns pela persistência, precisão dos dados e qualidade da escrita. O Poder financeiro, que apoia tantas matérias, provavelmente não apoiará o projeto Farol Reportagem. Mas a turma que ainda acredita no jornalismo como útil e importante pra sociedade acho que continuará apoiando, ainda que com menos força do dinheiro e aos pouquinhos. Abraço!

  2. Paulo Cesar Varela Velho
    dezembro 4, 2017
    Reply

    Continua o teu trabalho caro Lúcio. dois a defesa dos oprimidos em todo o sistema carcerário do Brasil jamais deixará de render frutos benéficos para a sociedade. Bem verdade é que não se consegue recuperar a todos e, eu sinceramente não sei dos percentuais estatístico. Agora, sem um aprimoramento dos profissionais da área, caminharemos para resultados piores na criminalidade. Parabéns amigo, bem como aos profissionais dignos da SJC.

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