Auditoria aponta 15 atos ilegais nas contas de Florianópolis

Mesmo contrariando a legislação e com falhas nos dados que não demonstram a real situação financeira e orçamentária da Capital, conselheiros do Tribunal de Contas aprovaram balanço do ano de 2015 da Prefeitura de Florianópolis em dezembro de 2016. Falhas contábeis podem comprometer números apresentados pela atual gestão e que ajudaram na aprovação das reformas aprovadas pela Câmara de vereadores , segundo avaliação de doutor em administração pública ouvido pelo Farol Reportagem. Problemas no sistema contratado pela prefeitura e sob investigação do MPSC podem ter criado diferenças de valores, segundo justificativa enviada aos auditores e admitidos pela própria gestão do ex-prefeito Cesar Souza Júnior.

Lúcio Lambranho e Fábio Bispo

Em menos de 40 minutos, os conselheiros do TCE-SC aprovaram na sessão extraordinária do dia 16 de dezembro do ano passado as contas do ano de 2015 da Prefeitura da Capital. Ignoraram os pareceres do relator do caso e do Ministério Público de Contas (MPTC) que pediam a rejeição das contas apresentadas e que, segundo a análise da Diretoria de Controle de Municípios (DMU), contém 15 ações ilegais, um rombo financeiro de mais de R$ 254 milhões e aplicação menor do que o mínimo previsto em lei no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) no valor de R$ 15 milhões. Também foram registradas restrições e falhas contábeis, incluídas no descumprimento legal, deixando uma dúvida de pelo menos R$ 84 milhões sobre os principais números da administração municipal.

Veja abaixo “Raio X das Contas- As restrições legais nas contas de 2015 da Prefeitura da capital”

Durante a sessão, o então secretário de Educação, Rodolfo Pinto da Luz, argumentou que não havia aplicação abaixo dos limites previstos em lei, 60% em pessoal e 95% nas demais despesas dos valores recebidos do governo federal. Nos salários com os professores foi cumprido o percentual, de acordo com a auditoria, mas ficou em 80,56% nas despesas com manutenção e desenvolvimento da educação básica.

Questionada pelo conselheiro Dado Cherem, Pinto da Luz afirmou que a prefeitura aplicou 100% do que recebeu nos dois casos. Segundo o ex-secretário, Florianópolis aplicou 100% na questão de pessoal do Fundeb, sendo o que apurado na auditoria foi de 80%, e outros 100% nas despesas e ao contrário do que os auditores informaram no relatório ser de 80,56%.

Assista a sessão do TCE que julgou as contas da Prefeitura de Florianópolis

Após sua sustentação oral, o relator do processo, auditor substituto de conselheiro Gerson Sicca, argumentou que havia um problema com as fontes de recursos e que isso poderia ser reexaminado pelo TCE-SC mesmo após a rejeição das contas. “O que consta do processo e pela classificação que foi feita não há elementos em que possam permitir concluir pela aplicação de percentual acima de 95%”, afirmou Sicca.

O conselheiro Júlio Garcia, porém, sugeriu que essa divergência não fosse considerada como motivo para rejeição, considerando as palavras de Pinto da Luz e que fosse aberto um novo processo para analisar a questão do Fundeb. “Sua palavra deve merecer fé, muito embora o tribunal trabalhe com documentos”, disse Garcia. Cherem acatou o pedido de Garcia e os demais conselheiros acabaram aprovando por cinco votos a um as contas da Capital.

“Em diversos julgados, alguns até mesmo com déficits muito menores do que os verificados nestes autos, o comportamento constatado foi considerado motivo hábil para a recomendação de rejeição das contas”, afirma o procurador do MPTC, Diogo Ringenberg ao citar outros três pareceres que rejeitaram as contas dos municípios de Irineópolis (2004), Barra Velha (2004) e Orleans (2003). Além de confirmar a restrição apontada pela área técnica com aplicação menor de recursos do Fundeb, Ringenberg afirma que as irregularidades contábeis identificadas pela DMU devem ser consideradas como “gravíssimas” e ressalta que as contas foram “precariamente prestadas”. “Será inviável recomendar-se a aprovação das contas do Município de Florianópolis pelo simples fato de suas demonstrações contábeis não ilustrarem adequadamente a posição financeira, orçamentária e patrimonial do Município em 31 de dezembro de 2015”, avalia o procurador.

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Neste parecer, o procurador também recomenda que as ilegalidades devam ser enviadas pelo TCE-SC para a apuração das responsabilidades ao Conselho Regional de Contabilidade diante das falhas contáveis e ao MPSC sobre o descumprimento da lei que regula a aplicação dos recursos do Fundeb. No seu parecer, Sicca afirma que a ilegalidade contábil “ainda não macula” a situação orçamentária, financeira e patrimonial do município, mas recomenda que sejam adotadas providências para corrigir e prevenir a ocorrência de falhas deste tipo.

Nas suas justificativas e antes de entrar nos detalhes dos apontamentos dos auditores, a prefeitura classifica com “tumultuada, penosa e complicadíssima” a migração de dados (orçamentários, patrimoniais, financeiros e contábeis) que começou em 2014 pela da mudança de empresa prestadora de serviços de softwares.

“As incompatibilidades dos sistemas na parametrização das informações e o atendimento aos novos regramentos, em razão do princípio da transparência, iniciados em meados de 2014 e continuados no início de 2015, foram fundamentais para a não compatibilização e, consequentemente, o não atendimento aos prazos e algumas obrigações na regularização dos processos e procedimentos de apresentação e disponibilização de todos os dados, de forma confiável, nas plataformas de transparências desde Município à população”, destaca o ex-prefeito no seu comunicado ao TCE-SC em 11 de novembro de 2016.

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Como mostrou o jornal Notícias do Dia ainda em maio de 2016, a Câmara de Florianópolis abriu uma investigação sobre o caso com a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para avaliar o contrato entre a prefeitura de Florianópolis e a empresa Thema, que gerenciava o sistema administrativo, contábil e de pessoal do município. Segundo os autores do pedido, havia indícios de superfaturamento no contrato assinado no valor de R$ 11 milhões.

A CPI encerrou sem consenso sendo apresentados dois relatórios. Afrânio Boppré (PSOL) apresentou relatório de 25 páginas e Dalmo Meneses (PP) apresentou relatório em separado, de duas páginas. Afrânio e Guilherme Botelho (PSDB) aprovaram o texto do relator, enquanto Dalmo e Badeko (PPS) aprovaram o texto em separado. Celso Sandrini (PMDB), que votaria com Afrânio, sofreu um infarto e estava internado no dia da votação. “Mesmo assim encaminhamos nosso relatório para o Ministério Público”, afirmou Afrânio. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) ainda investiga o mesmo contrato em um inquérito civil público.

“Combinação mortal”

Arlindo Carvalho Rocha, doutor em Administração e que estudou os pareceres do TCE-SC na sua tese em 2011, analisou a pedido do Farol Reportagem o processo de prestação de contas da prefeitura da capital relativo ao ano de 2015 e a apresentação do atual prefeito sobre a situação financeira do município. Além de avaliar que o principal problema da administração municipal são os gastos elevados com pessoal e que passaram dos limites da lei de responsabilidade fiscal nos últimos dois anos, Rocha afirma que os problemas se agravaram quando a gestão anterior estimou no orçamento de 2015, aprovado pela Câmara de Vereadores, um valor muito alto de receita e que não levou em conta os efeitos do agravamento da crise econômica.

Pelos dados da auditoria do TCE-SC, a receita arrecadada atingiu o montante de R$ 1.507.806.061,37 bilhão, equivalendo a 61,56% da receita orçada. O valor total previsto pela Lei Orçamentária foi de R$ 2.449.374.043,00 bilhões. “Como essa autorização a prefeitura pode gastar mais com pessoal do que deveria e viu o aumento da receita não se realizar diante da crise. A combinação de déficit orçamentário e financeiro é mortal, pois a prefeitura ficou sem dinheiro para pagar suas contas e gastos correntes. Isso pode ser visto na falta de aplicação mínima apontada pelo Tribunal, no caso do Fundeb, e que é ilegal. As contas não poderiam ter sido aprovadas pelo tribunal, pois o dinheiro do fundo foi usado para outros fins. Onde foi parar o dinheiro do Fundeb?”, questiona o professor da Udesc e que também foi analista de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU).

O déficit orçamentário nas contas de 2015 de Florianópolis foi de R$ 171.382.063,50 milhões, representando 12,81% da receita arrecadada do município e aumentado em 20,63%, pela exclusão do superávit orçamentário do Sistema de Previdência (R$ 29.306.931,95 milhões), segundo dos dados da auditoria da corte de contas. Os problemas de caixa da prefeitura também são confirmados pelo aumento do déficit financeiro. Foi de R$ 255.589.654,99 milhões resultante do déficit financeiro remanescente do ano anterior, correspondendo a 19,10% da receita arrecadada do município de R$ 1.338.254.854,67 bilhão.

O déficit financeiro significa que o executivo municipal realizou mais pagamentos do que a entrada de receitas e no orçamentário mostra que autorizou, no mesmo ano, mais gastos do que os recursos que tinha disponíveis em 2015. Os dois casos, além de serem uma “combinação mortal” como destacou o professor, também estão, segundo a auditoria do TCE-SC, contrariando o previsto na lei federal que regula a apresentação de orçamentos e Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Em relação ao ano anterior no caso do déficit financeiro aconteceu uma variação negativa de R$ 149.966.546,51 milhões, passando de um déficit de R$ 105.623.108,48 milhões em 2014 para um de R$ 255.589.654,99 milhões em 2015.

Contas maquiadas, erros contábeis e números inflados –

Também chamou muito a atenção do professor da Udesc as falhas contábeis registradas pelos auditores do TCE. “São problemas que não deveriam acontecer em uma prefeitura do porte de Florianópolis e que normalmente não acontecem. São erros primários e me preocupam muito, pois as contas não fecham e algo muito sério aconteceu nas contas que foram muito maquiadas, a não ser que seja um problema do sistema que gerou a contabilidade”, avalia Carvalho Rocha.

Na apresentação “Análise da situação financeira da Prefeitura de Florianópolis sob o aspecto da Lei Complementar nº 063, DE 2003”, uma referência a norma que regulamenta o estatuto dos servidores, o prefeito Gean Loureiro afirma que o total a pagar pela prefeitura em 2017 é de R$ 614,14 milhões. A conta (veja a tabela abaixo extraída do documento divulgado pela prefeitura) é a soma de todos os compromissos assumidos com fornecedores em 2016 no valor de R$ 144,14 milhões e restos a pagar dos anos anteriores de R$ 86,79 milhões, um total de R$ 230,93 milhões. E também toda a folha de pessoal do município no total de R$ 190,98 milhões, sendo R$ 129,31 milhões de encargos assumidos em 2016 e mais valores que devem ser pagos neste ano de R$ 61,67 milhões.

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A conta do prefeito fecha com a soma do parcelamento da previdência dos servidores em 2016 com mais R$ 3,98 milhões e outros R$ 177,30 milhões na dívida de curto prazo. Pelas contas da atual gestão, além destas obrigações deste ano, a prefeitura tem débito total de R$ 1,07 bilhões, a soma dos R$ 614,14 milhões de fatura a ser paga neste ano e mais R$ 453,02 milhões que devem ser pagos nos próximos anos do mandato do atual prefeito. Diante dos débitos deste ano e da dívida que herdou, a meta do prefeito é cortar R$ 100 milhões do total do custeio da prefeitura que, segundo suas contas, foram de R$ 543,3 milhões. Com isso pretende, principalmente com os cortes na folha de pessoal, fixar o custeio deste ano em R$ 443 milhões.

Na avaliação do professor de orçamento público e de accountability, estes erros apontados pela auditoria tornam “inflados” todos os números apresentados até agora pela atual gestão de Gean Loureiro. “Ao que parece, os valores apresentados pelo atual prefeito estão inflados. As prováveis causas para isso são, em primeiro lugar, o fato de que os números mostrados pela gestão passada parecem não fechar. Além disso, a atual equipe soma dívidas efetivas (pagamentos não realizados) com despesas a vencer durante o presente exercício e para além dele, o que gera uma “dívida” que parece muito acima da capacidade da prefeitura de pagá-la e, por consequência, um ambiente propício à aprovação das reformas”, diz o professor da Esag.

Segundo Rocha, o exemplo disso é a despesa com pessoal (lâmina 12), onde aparecem as dívidas efetivas (7,4 + 47,6 milhões) somada às parcelas a vencer no decorrer deste exercício (65,4 milhões) chegando o total da “dívida herdada” de 123,4 milhões.

Outra questão que chamou a atenção do professor é da programação financeira, constantes da apresentação do Prefeito (lâminas 10 e 11). No primeiro quadro é registrado um saldo orçamentário negativo (Restos a Pagar) em dezembro de 2016 de R$ 62,9 milhões. Na projeção da Secretaria de Planejamento neste mesmo quadro, a receita total do exercício de 2017 vai chegar a R$ 1,3 bilhão diante de um custeio estimado de R$ 1,4 bilhão (lâmina 11).

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“Apresentada dessa forma, a situação é caracterizada pela soma das despesas maior do que a soma das receitas, ou seja, de déficit financeiro. Todavia, as receitas apresentadas no quadro (lâmina 11) referem-se tão somente às fontes 80, 81 e 82, não fazendo referência às demais fontes de recursos da prefeitura, as quais, se consideradas, poderiam, eventualmente, levar a uma situação de superávit financeiro”, explica Rocha. Novamente, diz o professor, a apresentação cria uma “certa dúvida” sobre a capacidade da prefeitura de pagar suas “dividas” para criar um ambiente propício à aprovação das reformas.

Cortes de pessoal positivo e aumento da contribuição previdenciária negativo

Na receita de Carvalho Rocha para melhor a situação do município estão os cortes em gastos com pessoal e aumento da arrecadação. Neste dois pontos, o professor avalia que a prefeitura tomou medidas corretas ao tentar cortas gastos com o funcionalismo e na mudança no plano de cargos e salários que, segundo Rocha, era “inviável”. O professor também avalia que a receita da prefeitura deve aumentar e ficar concentrada em apenas um ano fiscal com a mudança realizada no pagamento do IPTU. A alteração, segundo Carvalho Rocha, de mudar de 12 para 10 parcelas o pagamento do imposto fará com que a prefeitura receba mais recursos em um mesmo ano.

Do lado negativo sobre as medidas do pacote de Gean Loureiro, o doutor em administração pública afirma que as mudanças no sistema de previdência podem afetar ainda mais o caixa já combalido da Capital. O município quer alterar as alíquotas passando a contribuição dos trabalhadores de 11% para 14% e a do município de 14% para 28%. A elevação se dará de forma gradativa, segundo a prefeitura, no caso dos trabalhadores de 1% ao ano. “A prefeitura vai criar um rombo ainda maior aumentando sua participação nesta conta e pode criar um problema muito sério”, afirma o professor da Udesc.

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Raio X das Contas- As restrições legais nas contas de 2015 da Prefeitura da capital

Leia abaixo, um resumo das justificativas enviadas pela Prefeitura e a análise dos auditores sobre as principais ilegalidades apontadas na auditoria:

1 – Déficit orçamentário de R$ 170.586.860,60 milhões – “Arrecadação superestimada e falta de cuidado”.   

Lei descumprida: artigo 48, “b” da Lei nº 4.320/64 e artigo 1º da Lei Complementar nº101/2000 – LRF

Justificativa da Prefeitura: Ficou comprometida pela crise econômica com redução dos repasses estadual e federal. Deixou de arrecadar R$ 941 milhões de reais.

Análise da auditoria: “As justificativas no sentido de que o município deixou de arrecadar R$ 941 milhões que estavam previstos no orçamento em razão da crise econômica é inapropriada. É notório que os recursos previstos no orçamento não têm expectativa liquida e certa que serão efetivados na sua integralidade, sendo ainda mais evidente quando observado que a peça orçamentária tem previsão de arrecadação superestimada. Portanto, analisando o exercício de 2015 em relação ao ano anterior constata-se que houve queda das receitas totais em 1,5.%, por outro lado, ocorreu um aumento das despesas totais de 5,24%, indicando um incremento de despesas superior às receitas, fato este que revela a falta de cuidado para com o equilíbrio das contas públicas.”

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2- Déficit financeiro de R$ 254.794.452,09 milhões – Lei descumprida: artigo 48, “b” da Lei nº 4.320/64 e artigo 1º, § 1º, da Lei Complementar nº 101/2000 – LRF

Justificativa da Prefeitura: Foi apresentado um quadro com as informações do Balanço Patrimonial afirmando que era suficiente para esclarecer o déficit apurado.

Análise da auditoria: “Afirma que o déficit é um saldo remanescente de exercícios anteriores, tal assertiva demonstra-se equivocada vez que a composição do déficit apurado, decorre principalmente da gestão orçamentária verificada no exercício análise.”

3- Despesas com manutenção e desenvolvimento da educação básica no valor de R$ 84.613.228,36 milhões, equivalendo a 80,56% (menos que 95%) dos recursos do Fundeb, gerando aplicação a menor no valor de R$ 15.162.575,60 milhões – Lei descumprida: artigo 21 da Lei nº 11.494/2007

Justificativa da Prefeitura: Equívocos ou falhas no envio das informações eletrônicas.

Análise da auditoria: “Os esclarecimentos são insuficientes para alterar os registros extraídos do Sistema e_Sfinge, não basta nesta oportunidade simplesmente alegar a ocorrência de equívocos ou falhas no envio das informações eletrônicas, as quais devem refletir as informações contábeis que estão sob a guarda da unidade, ademais, está se tornando rotina a cada exercício financeiro os responsáveis pela Unidade alegarem que as informações armazenadas no Sistema e_Sfinge estão incorretas.” A área técnica também informa que o próprio responsável “demonstrou descontrole quanto ao inadequado lançamento de entrada e baixa dos recursos”.

4- Ausência de realização de despesas, no primeiro trimestre de 2015, com os recursos do Fundeb remanescentes do exercício anterior no valor de R$ 2.665.162,46 milhões, por meio de abertura de crédito adicional. Lei descumprida: § 2º do artigo 21 da Lei nº 11.494/2007

Justificativa da Prefeitura: Informa que o valor correto é R$ 2.447.999,84 milhões.

Análise da auditoria: “Não detalhou ou apresentou elementos que comprovassem sua informação, de forma que, a presente análise mantém o saldo de R$ 2.665.162,46 conforme apurado na prestação de contas do exercício de 2014.”

5- Despesas inscritas em restos a pagar com recursos do Fundeb e sem disponibilidade financeira no valor de R$ 21.314.636,02 milhões

Lei descumprida: artigo 85 da Lei n°4.320/64

Justificativa da Prefeitura: As mesmas justificativas apresentadas no item 3.

Análise da auditoria: Manteve a restrição assim como apresentado no item 3.

6- Gastos com pessoal acima do permitido pela LRF: Despesas com pessoal do Poder Executivo, no exercício de 2015, no valor de R$ 761.384.181,02 milhões, representando 57,65% da Receita Corrente Líquida (R$ 1.320.690.662,78), quando o percentual legal máximo de 54,00% representaria gastos da ordem de R$ 713.172.957,90. Gastos a mais do que a lei permite de R$ 48.211.223,12 milhões.

Lei descumprida: artigo 20, III, ‘b’ da Lei Complementar nº 101/2000

Justificativa da Prefeitura: Redução da receita corrente líquida em decorrência da crise econômica.

Análise da auditoria: “Verificamos que os dados apurados no exercício de 2014 em confrontação com exercício de 2015 não sustentam o que afirmou o responsável. Senão vejamos, a Receita Corrente Líquida do exercício 2014 importou em R$ 1.185.469.025,05, enquanto que em 2015 o montante foi de R$ 1.320.690.662,78, ou seja, incremento de 11,41%. Assim, não há que se falar em redução da RCL por conta da crise econômica.”

7 – Falhas contábeis: Divergência no valor de R$ 38.012.209,05 milhões. Foi apurada entre a variação do saldo patrimonial financeiro (R$ 149.966.546,51) e o resultado da execução orçamentária Déficit (R$ 133.386.286,45) e considerando o cancelamento de restos a pagar de R$ 3.538.653,21. Lei descumprida: artigo 102 da Lei nº 4.320/64

Justificativa da Prefeitura: Alega que as despesas foram canceladas por força de leis municipais de parcelamentos de débitos previdenciários, modificando a competência da despesa. Com as justificativas apresentadas pela Prefeitura, o valor divergente subiu de R$ 21.683.232,51 milhões para R$ 38.012.209,05 milhões.

Análise da auditoria: “Os parcelamentos autorizados pelo Legislativo Municipal não contemplaram em seus textos qualquer determinação para cancelar ou alterar a competência dos compromissos previdenciários”.

8-Realização de despesas, no montante de R$ 46.230.499,19 milhões empenhadas, liquidadas e estornadas e não empenhadas no exercício de 2015

Lei descumprida: artigos 35, II e 60 da Lei n° 4.320/64

Justificativa da Prefeitura: Afirma que que não se tratam de despesas orçamentárias e solicita a retirada da restrição.

Análise da auditoria: Segundo os auditores, as comprovações não restaram integralmente comprovadas as alegações. Mas considerou o valor de R$ 795.202,90 mil de despesas previdenciárias canceladas que foram reempenhadas e pagas ainda no exercício financeiro de 2015. Reduziu o valor irregular de R$ 47.025.702,09 milhões para R$ 46.230.499,19 milhões.

Contrapontos

Por meio de sua assessoria, a Prefeitura de Florianópolis contestou as afirmações do professor da Esag, que também comentou a pedido do site as respostas enviadas pela atual gestão do Executivo da capital.

Prefeitura de Florianópolis

Previdência

As alíquotas de contribuição (patronal e dos funcionários) naturalmente deverão ser revistas, a cada período, uma vez que a expectativa de vida vem aumentando, e com isso pagamentos mais longevos de benefícios previdenciários. Outro fator que altera o equilíbrio do regime previdenciário são as aposentadorias especiais, que a cada instante grupos organizados pressionam parlamentares a fim de reduzir o tempo de contribuição e a idade mínima. Fatores que juntos provocam a falência do sistema. A alíquota patronal não deverá dobrar como afirmado pelo professor, uma vez que este dispositivo foi suprimido da legislação municipal. E mesmo que tivesse ocorrido, a própria legislação imputa a responsabilidade do déficit ao tesouro, o que na prática dá no mesmo, seja por aumento de alíquota ou aportes de cobertura do déficit. Nisto tudo o importante é que todas as partes estejam convergindo para uma solução responsável para busca de alternativas para o equilíbrio do sistema.

Comentário do professor da Esag: “A retirada do dispositivo coloca a previdência no mesmo patamar que estava antes e não vai resolver o problema do déficit.” Em pouco tempo os valores deverão ser revistos, pois todo o esforço poderá ser não resultar no equilíbrio das contas da previdência e será preciso repactuar as alíquotas novamente”.

Restos a pagar

Com relação a informação de que ocorreu ‘superdimensionamento’ dos números pela atual gestão existe um equívoco. Segundo dados da Contabilidade Geral do Município o montante da dívida consolidada (restos a pagar) até 01/01/2017 é de mais de R$ 340 milhões. Portanto, não é verídico afirmar que a atual gestão apresentou valores com vencimento neste exercício, são todos referentes a exercícios anteriores.

As fontes 80, 81 e 82 são próprias, as demais fontes de recurso já possuem sua vinculação a determinadas despesas, não sendo possível fazer o cruzamento destas com aquelas.

Importante também ressaltar que mesmo diante de todas as medidas para redução de custeio da atual gestão, ainda se busca equacionar o pagamento de parte dos salários do funcionalismo público de dezembro e o 13º de 2017, visto que a melhora na arrecadação municipal não se confirmou até este momento.

Comentário do professor da Esag: “De fato, a dívida consolidada é R$ 340 milhões. O resto são contas que vão vencer neste exercício e podem ser consideradas como déficit, mas não como dívida. Tecnicamente, dívida é aquilo que já venceu e o que não foi pago no exercício é déficit. Por isso, é pouco transparente fazer a soma destes dois tipos de valores.

Novamente, falta clareza e transparência na apresentação deste dados e informações sem citar todas as fontes de despesa e receita. São apenas citadas algumas delas no material analisado.

O Farol também tentou ouvir o ex-prefeito da Capital e atual secretário de Assuntos Estratégicos do governo estadual, pasta que Cesar Souza Júnior assumiu em março deste ano. Até o fechamento desta edição não recebemos retorno das perguntas encaminhadas por e-mail.

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One Comment

  1. Simoni Oliani
    maio 13, 2017
    Reply

    Mais uma bela reportagem do FAROL.
    A clareza e a riqueza das informações, demonstram o excelente trabalho realizado pelo Lucio e Bispo, parabéns !
    Entendo que se a maioria da imprensa trabalhasse da mesma forma que vocês, estaríamos em situação muito melhor.

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